sábado, 31 de março de 2012

Entrevista concedida ao Blog TENNIS COM DENIS

Abaixo, segue na íntegra, entrevista que respondi ao sempre crítico Professor DENIS CLEITON, um verdadeiro Profissional da área de Educação Física.

O endereço:


ENTREVISTA COM LUDGERO BRAGA NETO: OS ASPECTOS CIENTÍFICOS LEVADOS A QUADRA DE TÊNIS

No país dos professores provisionados (pessoas que não possuem formação universitária e lhes foi concedida uma licença pelo tempo de trabalho para continuar atuando), do conhecimento superficial e do quadro da histórica procrastinação dos profissionais do ensino do jogo de tênis, um grande profissional da nova geração que investiu muitos anos em sua formação é destaque por onde passa.
Conhecimento científico, rigorosidade acadêmica, tecnologia e comprovação de resultados levados as quadras de tênis, assim é Ludgero Braga Neto, Doutor em Biomecânica com aplicabilidade ao jogo de tênis ,titulo obtido pela Universidade de São Paulo (USP).

Sempre atuante e divulgando seu trabalho Ludgero não se esconde, publica em revistas especializadas, compartilha seus vídeos, palestra em diversos eventos, possuí um excelente blog, e hoje nos conta um pouco mais a respeito de sua história e o desenvolvimento de seu trabalho.



Gostaria de agradecer ao Denis, pela oportunidade em participar deste Blog, um local, que apesar de virtual, deve ser visitado frequentemente pelos profissionais do tênis que procuram informações. É uma grande chance de desenvolver uma nobre capacidade cada vez menos priorizada em nosso meio: a CRITICIDADE.

1) Como e quando você começou trabalhar ministrando aulas de tênis?
Joguei tênis no São Carlos Clube dos 4 aos 18 anos. No último ano como juvenil, meu técnico (Marcelo Magagnini) mudou-se para Ribeirão Preto. A diretora de tênis me convidou então para assumir a Equipe Infanto-juvenil do Clube. Já vinha sofrendo com uma grave lesão na porção posterior da coxa. Resolvi então aceitar o convite. Isso foi em Outubro de 1.990. Desde então sigo atuando na profissão. 

2) E o interesse pela biomecânica como surgiu?
Estava no 1o ano do Curso de Educação Física na USP, quando recebi uma bolsa de Estágio na Fisiologia, como prêmio por mérito acadêmico. Apos alguns meses nesta área, já percebia que a aplicabilidade da Fisiologia no meu dia-a-dia como Treinador de Tênis era baixa, e isso me incomodava. Nessa época já sabia que a área mais próxima à minha profissão era a Biomecânica, mas ainda não havia cursado essa disciplina. Mais alguns meses e o professor de Biomecânica (Prof. Dr. Alberto Carlos Amadio) soube que havia um estudante do curso que também era Treinador de Tênis, e foi “me buscar” na Fisiologia. Aceitei o convite imediatamente. Foi assim que surgiu meu interesse por esta Ciência. O Prof. Amadio foi meu orientador por 12 anos: Monografia, Iniciação Científica, Mestrado e Doutorado. Com ele aprendi o verdadeiro valor da Pesquisa. Aprendi o quanto é importante produzir conhecimento. E mais: o quanto é nobre disseminar esse conhecimento. 

3) No passado a técnica do jogo de tênis era ensinada com base nos modelos esteriotipados dos jogadores de elite, não levando em consideração os traços individuais, ou a imprevisibilidade e necessidades de adaptação do jogo de tênis, como os conhecimentos da biomecânica podem auxiliar os professores/treinadores de tênis na atualidade sem repetir os erros do passado?
Tenho percebido que nas últimas duas décadas, o Princípio da Individualidade tem sido um pouco mais respeitado. Na minha época como jogador, todos faziam o mesmo treino, não importando as demandas individuais. Penso que os conhecimentos da Biomecânica são úteis dentro de um contexto multidisciplinar, integrados às demais disciplinas: tática, condicionamento físico, nutrição, fisioterapia, entre outras. Esse discurso Multidisciplinar já vem sendo utilizado no tênis brasileiro há aproximadamente dez anos. Porém, se não houver comunicação entre as áreas, toda a estrutura implode. Essa comunicação entre as disciplinas é chamada de Interdisciplinariedade. Apos 21 anos de experiência como Treinador, e conhecendo a estrutura de muitos clubes e academias, posso dizer que esta Interdisciplinariedade é mito, quase não ocorre na prática. Quando ocorre, é apenas entre treinador de quadra e treinador físico. E ocorre em um nível bem superficial, por exemplo: “pegue leve no físico que vou puxar mais na quadra”. O Tênis carece de profissionais especializados nesta gestão interdisciplinar. O treinamento seria muito mais eficiente se isso ocorresse. Voltando à resposta da questão, percebo que o Ensino do Tênis, mesmo em nível social, deve levar em conta todos os aspectos envolvidos e suas correlações. As novas abordagens de Ensino priorizam a tática. Mesmo sendo especializado na técnica, utilizo muitos exemplos táticos para convencer o tenista que precisa melhorar a técnica. Exemplo 1: Quero mudar a empunhadura do forehand de um tenista, de western para semi-western. Ao invés de ir direto à técnica, peço ao tenista para trocar bolas na cruzada com topspin e definir na paralela com uma bola plana, flat. Dificilmente essa bola de definição será eficiente, devido à empunhadura, que acaba por imprimir muito giro à bola, tornando-a mais lenta. Agora sim, posso fazer a intervenção, através da “descoberta guiada”. Exemplo 2: O inverso. Tenho um tenista que utiliza a empunhadura eastern de forehand. Sei que com esta empunhadura será mais difícil cruzar bolas curtas com topspin. Elaboro então um treino onde faço um approach e o tenista é obrigado a executar a passada na cruzada, curta. Ele vai vivenciar a experiência de que com esta empunhadura o êxito desta jogada será limitado. Pronto, com argumentos práticos, meu canal de comunicação está facilitado.

4) Respectivamente quais foram as principais descobertas ou contribuições da sua dissertação de mestrado a respeito das características do saque no jogo de tênis, e da sua tese de doutorado na qual você discutiu os aspectos do forehand e backhand?
Resumidamente: A dissertação de Mestrado comparou as técnicas de posicionamento dos pés durante o saque, tema pouquíssimo abordado anteriormente. Entre as conclusões aplicáveis à área de Ensino do Tênis, demonstramos que a técnica Foot-up (técnica em que o tenista junta os pés antes de golpear a bola), quando comparada à técnica Foot-back (técnica em que o tenista não junta os pés antes de golpear a bola), apresentou maior complexidade em sua execução. Tal conclusão baseia-se nos maiores valores encontrados nas seguintes variáveis analisadas: força de reação do solo vertical, grau de flexão dos joelhos e tempo de movimento.A tese de Doutorado, bem mais extensa, comparou duas técnicas de posicionamento dos pés para o forehand (open stance e square stance) e duas técnicas de utilização das mãos para o backhand (backhand com 1 e com 2 mãos). Nesta pesquisa, músculos dos membros inferiores e superiores foram monitorados, em 3 fases do golpe: pré-impacto, impacto e pós-impacto. As maiores contrações musculares, para as quatro técnicas analisadas, foram registradas na fase pré-impacto, comprovando que é nesta fase onde nossas ações técnicas são mais importantes e portanto devem ser melhor trabalhadas. 

5) A pouco tempo estava discutindo com um grupo de professores a respeito do mercado norte-americano, que imunda o mercado de tênis , com uma infinidade de aparelhos e acessórios que tendem a auxiliar o desenvolvimento de melhores padrões de movimento, partindo de correções auxiliadas pelos objetos. Qual a sua opinião o Brasil esta atrasado em não possuir esta gama de materiais pedagógicos que poderiam auxiliar o professor?, ou estes materiais são muito mais apelos mercadológicos de consumo que proporcionam apenas a sensação aguda de benefício?
Nos últimos anos tenho ido com certa freqüência aos EUA, e realmente percebo que os norte-americanos se empolgam com esses materiais, parecendo buscar uma fórmula mágica. Sabemos que no tênis não existe essa fórmula, não existe um treino mágico. Porém sou a favor de que o professor/técnico estimule seu aluno/atleta de diversas maneiras. E nesse ponto acredito que muitos desses materiais auxiliem em determinadas etapas de aprendizagem de determinadas variáveis técnicas, táticas ou físicas. Vai depender do propósito atribuído ao treino. Para exemplificar, veja o que trouxe em uma das viagens.
Chama-se “Pre Stroke Trainer”. É uma espécie de anti-vibrador gigante, mas tem outra função. Você fixa esta peça entre as cordas e ele funciona como um peso extra, alem de aumentar a resistência com o ar. Antes de iniciar o treino de quadra, o tenista simula os golpes com esta peça presa às cordas. O fabricante recomenda utilizar como complemento ao aquecimento. Para um de meus atletas, consegui fazê-lo funcionar com outro objetivo: auxiliando no desenvolvimento da propriocepção, capacidade fundamental para um tenista. Propriocepção é a capacidade em reconhecer a localização das várias partes de seu corpo no espaço, sem utilizar a visão. No tênis isso é muito importante, pois seu foco visual sempre deverá estar voltado para a bola. Além disso, a propriocepção auxilia na manutenção do equilíbrio postural durante os golpes.

6) Você teve a oportunidade de treinar o Thomaz Belluci, quais foram os desafios e prioridades no trabalho com este jogador?
Trabalhei com o Thomaz em dois momentos: 2005 e 2007.
Em 2005 o foco foi o saque. O Thomaz precisava transpor a barreira de torneios nível Futures, e decidimos, sem muitas dificuldades, que o melhor atalho seria através do saque. Já era final de ano e utilizamos o período de pré-temporada. Antes dos treinos gastávamos algum tempo em minha sala, observando e discutindo os vídeos. O interesse do Thomaz foi fundamental para o resultado do trabalho. Ele conseguiu melhorar muito o saque através da melhor utilização dos membros inferiores. 
Em 2007, desta vez com mais tempo para trabalharmos, focamos no jogo de rede, tempo de reação e voltamos para alguns itens específicos do saque. O Thomaz não apresentava força suficiente na porção posterior do antebraço para executar de forma satisfatória os voleios de backhand. Lembro que treinamos exaustivamente voleios altos. Abaixo, uma das planilhas de treino que cumpri com o Thomaz:


7) No conjunto de componentes que integram a biomecânica, a quantificação das ações motoras faz parte do estudo e pesquisa deste campo de atuação, quais sãos os instrumentos que se utilizam para mensurar e justificar o treinamento? 
A área da Biomecânica em que optei foi o desempenho técnico - ou performance - que pode ser entendida como administrar mecanismos de controle e de potência com o menor risco de lesionar o executante. Sabemos que quantificar as ações motoras do tênis é de fundamental importância para planejar um treinamento. Inclusive essa quantificação foi uma das justificativas por optar pelos três golpes mais importantes: saque, forehand e backhand - que juntos - representam aproximadamente 82% dos golpes executados em um jogo de tênis. 

8) No que se refere a análise biomecânica em vídeos, os programas Dart – Fish, Kinovea, até mesmo o mais simples Windows Movie Maker , fazem parte das discussões de professoes/treinadores de tênis, você acha que este é um interesse fugaz? Julgando pelo fato que se tem a tecnologia mas não se conhecem as leis e princípios da biomecânica? E qual o software que mais oferece recursos ao treinador?
Bom saber que temos professores/treinadores interessados em software de análise em vídeo. São ferramentas muito úteis, porém como você mesmo citou, só serão bem utilizadas com conhecimento prévio dos principais aspectos biomecânicos. Cito aqui alguns desses aspectos: planos e eixos anatômicos, cinemática linear, cinemática angular, segmentos e ângulos articulares, leis de Newton, tipos de forças, momentum, impulso, energia muscular elástica, torque, raio de giro, equilíbrio, métodos de medição (antropometria, cinemetria, dinamometria e eletromiografia), entre outros. 
Entre os software citados, o Dartfish é o mais completo, e portanto, o mais complexo, alem de muito caro. Recomendo aos professores/treinadores sem especialização em Biomecânica, o Kinovea, que tem download gratuito e possui boas ferramentas, como: comparação entre dois vídeos, mensuração de ângulos, zoom, cronômetro, marcação de pontos, marcação de trajetória, entre outras. 

9) Comente a respeito da sua parceria com o Fisioterapeuta da Copa Davis Ricardo Takahashi, nesse novo curso biomecânica e fisioterapia.
A partir de Abril deste ano, eu e o fisioterapeuta Ricardo Takahashi iniciaremos uma série de Cursos voltados aos profissionais do tênis. Em duas oportunidades (2004 e 2010) já ministramos este Curso para os professores da rede Play Tennis. Desta vez, os Cursos terão um formato inédito: em dupla. Tive essa idéia a partir do conceito de interdisciplinariedade, que citei acima. Eu apresentarei o tema relacionado à Biomecânica, e logo em seguida o Takahashi fará os respectivos links referentes à Fisioterapia. Estes Cursos serão teóricos e práticos (em quadra). Tenho certeza que desta forma os ouvintes terão maior chance e motivação para reter e aplicar as informações. 

10) Quem sãos sua principais referências profissionais?
Boa pergunta, mas difícil de responder. 
Sempre tratei as informações que recebi como ouro. E sempre fui grato às pessoas que me passaram essas informações. Portanto, tenho muitas referências profissionais. Vou citar algumas, com suas respectivas qualidades e/ou contribuições:
• Wilton Carvalho (Batata) – me ensinou muito sobre postura profissional, dentro e fora de quadra;
• Bruce Elliott (Austrália) – o maior pesquisador em Biomecânica do tênis no mundo, produz muitos artigos científicos;
• Eloy de Souza – um dos melhores profissionais em quadra, com uma postura firme e ativa, alem de uma comunicação impecável; 
• Prof. Dr. Alberto Carlos Amadio (meu eterno Orientador) – me mostrou como Sabedoria e Humildade podem e devem coexistir;
• Prof. Dr. Júlio Serrão (Professor de Biomecânica – USP) – o professor com a melhor didática em sala de aula;
• Prof. Dr. José Guilmar Mariz de Oliveira (Professor de Introdução à Educação Física – USP) – me ensinou a enorme diferença entre Educação Física e Esporte;
• Eduardo Eche – o técnico com a maior intensidade em quadra;
• José Nilton Dalcin (Jornalista) – o jornalista mais ético do meio tenístico; 
• Nelson Alves Pereira Junior (Nelsinho) – foi meu primeiro técnico, e através de suas atitudes, me ensinou sobre Competição; 
• Jairo Garbi – nosso maior conhecedor de Equipamentos para tênis;
• Gonçalo Fischer – o melhor técnico da nova geração;
• Eric Índio (professor para crianças na Academia Givaldo Barbosa) – o professor que tem o maior brilho nos olhos quando a criança chega para fazer aula. Esse será o professor dos meus filhos;
• Givaldo Barbosa – o professor mais carismático.

Também tenho minhas referencias profissionais negativas. Aprendi com diversos “técnicos” o que não devo ser/fazer: anti-ético, afastar os tenistas dos Pais, executar propostas de treino sem planejamento, ter mais marketing que conteúdo, colocar as questões financeiras à frente das questões profissionais, entre outras atitudes que desonram o Tênis. Portanto, também sou grato a estes.

11) Quais são os materiais (livros, artigos, vídeos) que não podem faltar para quem deseja se aprofundar nas questões biomecânicas do tênis?
Gostaria de indicar 4 livros básicos para o estudo da Biomecânica, disponíveis em português:
• Bases Biomecânicas do Movimento Humano. Hamill & Knutzen Editora Manole. 2003.
• Biomecânica Básica. Hall. Editora Guanabara Koogan. 2003.
• Anatomia e Biomecânica Aplicadas no Esporte. Ackland, Elliott & Bloomfield. Editor Manole. 2009.
• Anatomia Humana Básica. Dangelo & Fattini. Editora Atheneu. 2009.




Gostaria também de indicar 4 livros de Biomecânica específicos em Tênis, disponíveis em inglês:
• World-class Tennis Technique. Roetert & Groppel. Human Kinetics. 2001.
• Biomechanical Principles of Tennis Technique. Using Science to Improve Your Strokes. Knudson. Racquet Tech Publishing. 2006.
• Biomechanics of Advanced Tennis. Elliott, Reid & Crespo. ITF. 2003.
• Technique Development in Tennis Stroke Production. Elliott, Reid & Crespo. ITF. 2009. 




Para indicar artigos e vídeos, por serem temas muito específicos, fico à disposição através do e-mail ludgerobraganeto@gmail.com 

12) Como é o seu trabalho como professor universitário na USP ministrando a disciplina tênis?
Em 1999, quando ainda iniciava o Mestrado, recebi o honroso convite para criar a disciplina Tênis, a ser ministrada aos alunos do 4o ano do curso de Bacharelado em Esporte da Escola de Educação Física e Esporte da USP (EEFE-USP). Apos alguns meses de pesquisa, entreguei o Projeto ao Departamento de Esporte da EEFE-USP. Mais quase um ano de trâmites legais e a disciplina foi aprovada: um dos meus maiores orgulhos na área acadêmica. A partir de então passei a ministrá-la como Professor-convidado. Durante o semestre são 4 aulas semanais de 50 minutos, divididas entre Teoria e Prática. Aproximadamente 250 alunos já fizeram essa disciplina comigo. 

13) Quais são os principais mitos em biomecância ou com relação aos aspectos técnicos do jogo de tênis?
Poderia citar alguns, resumidamente:

“Vou melhorar bastante minha técnica para depois jogar”. Esta é a abordagem tradicional do ensino no tênis: da técnica para a tática. É obvio que é necessário ter uma noção mínima dos golpes básicos para depois jogar. Porém, a abordagem moderna inverte esta ordem: primeiro é necessário entender os problemas táticos do jogo. Nessa abordagem, o treinador ajuda o tenista a aprender, diagnosticando os problemas e buscando as melhores soluções. Aí é que entra a técnica, que costumo chamar de “caixa de ferramentas”. Além de possuir boas ferramentas (técnica), o tenista deve saber utilizá-la (tática), ponderando algumas variáveis: estilo do jogo, placar, piso, característica do adversário, fatores externos, entre outras. Portanto, é dessa forma que justifico a importância da Biomecânica: sempre aliada à tática. 

“Flexione os joelhos para os golpes do fundo de quadra”. Sim, esta afirmação possui fundamentos biomecânicos: é importante flexionar os joelhos (armazenamento de energia elástica) para depois utilizar a ação de extensão na fase de aceleração dos golpes (forwardswing). Também é um dos elos que compõem a cadeia cinética. Mas, não podemos nos esquecer que esse ciclo de flexão/extensão demanda tempo. Portanto, dependendo da situação tática e do posicionamento de ambos os jogadores, não será possível utilizar este movimento de forma adequada. 

“Para golpear o forehand, fique de lado para a quadra”. Fundamentos biomecânicos favoráveis: quando um tenista destro posiciona-se de lado durante a fase de preparação do forehand (square stance), ele terá a chance de formar um eixo de giro sobre o pé esquerdo. Assim, a transferência de energia para frente (onde está seu alvo) será maior. Quando o tenista posiciona-se de frente (open stance), ele não tem esse eixo de giro, pois os pés estão paralelos. Costumo dizer: se você fica de frente, gera força para o lado; se você fica de lado, gera força para frente. Tudo bem na teoria. 
Mas na prática, mais uma vez o fator limitante será o tempo. Em bolas rápidas, e/ou muito distantes lateralmente, o tenista chega sem o tempo extra de fazer a condução da perna para se posicionar de lado. Só resta então gerar potência a partir da rotação do quadril e membros superiores.

“Lance a bola bem alta para sacar”. Já ouvi muito essa frase. Mas será que é necessário lançar a bola tão mais alta que o ponto máximo de alcance? Perceba na sequencia abaixo, que a tenista lança a bola bem mais alta que o ponto máximo de alcance: 


Essa altura extra pode causar dois problemas na mecânica do saque:
1) A tenista deverá esperar a bola subir, passar do ponto de máximo alcance, parar e voltar até o ponto de máximo alcance. Todo esse tempo quebra o ritmo do saque. Quebrar essa inércia demandará contrações musculares explosivas, nem sempre disponível; e 2) A tenista terá que golpear uma bola que estará descendo, já com uma certa velocidade (lembrando que a aceleração da gravidade é de 9,8 m/s2). Isso exigirá um cálculo extra para sincronizar o contato raquete/bola. Um pequeno atraso nesse timing e seu cotovelo não estenderá completamente, diminuído sua potencia e sua altura de passagem da bola sobre a rede. 

“É possível ter um saque potente com uma preparação curta”. Sim, isso é perfeitamente possível. Porém, o sacador dependerá de uma genética privilegiada, que lhe garanta uma boa quantidade de fibras musculares de contração rápida, as chamadas fibras tipo II ou glicolíticas. Como nem todos os tenistas possuem grandes quantidades dessas fibras, a melhor maneira de desenvolver a potencia do saque é utilizar uma técnica que permita uma boa dose de aceleração da raquete antes do impacto com a bola. Sabendo que a potência do saque depende em grande parte da velocidade da raquete no instante do impacto, é necessária uma boa distancia entre a raquete e a bola. Como conseguir isso: leve a raquete bem para trás e lance a bola bem para frente. Veja as fotos abaixo. Repare como no saque com preparação abreviada (foto à direita), a raquete já está muito próxima à bola, limitando a aceleração e portanto a velocidade da raquete.


14) Você se preparou, investiu, rompeu paradigmas no jogo de tênis, você acredita que os profissionais que de fato estudam o tênis no Brasil são devidamente valorizados pelos clubes, academias, escolas de tênis e outras instituições, ou isso ainda é uma exceção?
Vou começar respondendo sua última questão com base em suas primeiras frases desta entrevista: “No país dos professores provisionados (pessoas que não possuem formação universitária e lhes foi concedida uma licença pelo tempo de trabalho para continuar atuando), do conhecimento superficial e do quadro da histórica procrastinação dos profissionais do ensino do jogo de tênis"... 

Infelizmente sua citação resume muito bem a situação de nossa realidade quanto ao ensino do tênis. Gostaria de abordar dois aspectos desta licença concedida pelos Conselhos Regionais de Educação Física, o chamado CREF provisionado:

Primeiro aspecto – Reconhecimento.
A partir do momento em que a profissão de Educador Físico foi regulamentada (Setembro de 1998), os professores de tênis que já atuavam na área, de alguma maneira, mais que justo sob meu ponto de vista, deveriam ser reconhecidos. E foi isso que aconteceu: ganharam o direito de continuar trabalhando honestamente. 

Segundo aspecto – Qualidade.
A qualidade é bem questionável. Para que o professor receba o CREF provisionado, precisa cumprir apenas 200 horas de atividades, sendo apenas 75 horas em caráter de aula/cursos em sala de aula. As outras 125 horas podem ser “comprovadas” através de certificados, cartas, entre outras formas pouco criteriosas. Acho que agora o termo “questionável” que utilizei fica justificado. 

O CREF teve que iniciar sua atuação de alguma maneira, entendo. Não poderia simplesmente encerrar as atividades dos inúmeros professores de tênis, sem reconhecer a história de cada um deles nesta modalidade esportiva. 

Porém, penso que deveria exigir mais qualidade na capacitação desses profissionais provisionados. Falo isso para o bem do nosso Tênis. É obvio que profissionais graduados têm uma base acadêmica muito mais ampla e sólida.

Estudam pelo menos 2.880 horas, dividas em disciplinas fundamentais para sua formação e atuação: anatomia, fisiologia, biomecânica, crescimento e desenvolvimento humano, socorros de urgência, aprendizagem motora, controle motor, fundamentos de administração, medidas e avaliação, introdução à pesquisa científica, bioquímica, nutrição e atividade motora, dimensões psicológicas da educação física, elementos de estatística, desenvolvimento motor, 1a infância, 2a infância, adolescência, adultos, 3a idade, educação física adaptada, dimensões antropológicas da educação física, fundamentos de saúde pública, estágio supervisionado, monografia, entre outras. 

Creio que são raros os casos em que os profissionais que de fato estudam sejam valorizados. Vale ressaltar ainda, que podemos dividir os profissionais que estudam em dois grupos:
1) Com Formação Acadêmica - cursam uma Faculdade de Educação Física - 2.880 horas; e 
2) Sem Formação Acadêmica – participam de cursos rápidos, cursos temáticos, como os que ministro atualmente aos finais de semana ou como os cursos de capacitação da CBT - 25 horas. 

É notório que existe uma enorme diferença em termos de carga horária entre esses dois grupos: o professor com formação acadêmica, que gastou dinheiro todo mês com a mensalidade do curso alem de despesas com transporte, e deixou de ter uma melhor renda mensal pois estava estudando, poderia fazer 115 desses cursos rápidos. Supondo que um professor sem formação acadêmica faça 5 cinco cursos rápidos por ano, demoraria 23 anos para alcançara a carga horária do professor que se graduou. 

Alem da questão da carga horária citada acima, levanto a questão do conteúdo. Os professores que cursam uma Faculdade de Educação Física possuem formação básica, essencial para toda profissão reconhecida e respeitada, como Medicina, Odontologia, Direito, Engenharia, entre outras. Os cursos rápidos não fornecem essa formação básica. São cursos temáticos, específicos, e que seriam melhor aproveitados se os professores possuíssem uma melhor formação acadêmica. 

Aproveito então para declarar meu profundo RESPEITO aos Profissionais, com “P” maiúsculo, que investiram em sua formação, verdadeiros guerreiros. Aproveito também para convidar os profissionais sem formação acadêmica a pensar na possibilidade em iniciar um curso de graduação. Essa é a sua profissão, invista nela!

Como exemplo da não valorização dos profissionais que buscam uma melhor capacitação, cito o SNGP (Sistema Nacional de Graduação Profissional), criado pela CBT. É um sistema organizado, que leva em conta todo o histórico do profissional, capacitação específica, trajetória como jogador, resultados profissionais, entre outras variáveis.

Infelizmente, nunca soube de algum professor/treinador que tenha sido valorizado (recompensado) por alguma clube ou academia pelo fato de possuir um nível mais alto neste sistema. 

Essa é a nossa realidade. Essa é a diferença entre Graduado e Provisionado. Sinto em constatar que nosso Tênis é Provisionado. Vamos lutar, buscar informações... e formação. Penso que este seja o melhor caminho para um dia conquistarmos um Tênis Graduado.

6 comentários:

  1. Eduardo Manuel C.de Matos1 de abril de 2012 03:37

    Prof. Ludgero

    Tudo isso que li é pura realidade e concordo em género número e grau consigo. Não só concordo como em Goiás a FGT e o CREF14 acabaram com o Provisionado. Agora toda a gente tem que fazer Curso superior e então fizemos o TAC. Eu sou dirigente, mas como Engº Químico e com cursos em Portugal cheguei por mim próprio á conclusão que embora Provisionado no Brasil ( fiz o curso para sentir as reações da turma) uma fez que fui estudante de Farmácia em Lisboa e fiz a Anatomia e a Fisiologia durante um ano, enquanto que estas duas matérias são ministradas num sábado para pessoas que nem vestibular fizeram.
    Hoje, aos 64 anos estou a preparar-me para fazer Educação Física, porque esse é o caminho embora já tenha mais de 300 horas de cursinhos de fim de semana ainda apenas estou a 10% do percurso. Muito Obrigado pela sua dedicação á causa.

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  2. Prof. Ludgero
    Concordo com tudo o que vc descreveu a respeito do nosso tênis, mas infelizmente a vida ainda não me permitiu cursar uma universidade, tenho 47 anos e ainda tenho este sonho, faço parte do mundo dos provisionados mas tento aprender todo o dia, busco informações de todo o tipo para obter o melhor para meus alunos adultos e crianças, leio muito seus posts e gostaria muito de fazer seu curso de biomecanica que acho fascinante, talvez mais adiante, mas continue alimentando os provisionados(sérios e dedicados)com seu conhecimento que talvez algum dia chegamos lá.gde abço
    Vanderlei G. Berwig-RS

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  3. Olá Ludgero, na teoria concordo com você, mas na prática infelizmente não é assim que funciona. Como em qualquer profissão, não adianta apenas gastar e investir no diploma que acaba sendo um papel que o qualifica a ser professor. É preciso trabalhar na área para aprender. No caso do esporte precisa aprender a jogar para poder entender como funciona e depois saber explicar. Os melhores técnicos quase que na totalidade foram tenistas profissionais e não formados em educação física, mas que buscaram informações e se atualizavam constantemente. A experiência passada como atleta ajudava a solucionar problemas e facilitava visivelmente nas explicações.
    Um engenheiro só vai conseguir tocar uma obra mais complexa depois de algum tempo acompanhando obras menores, um médico, da mesma forma precisa fazer muitos estágios para encarar uma situação complicada.
    Quanto ao profissional provisado na área do tênis, muitos possuem uma boa parte prática, que considero mais de 50% do necessário para dar uma aula, com algumas horas de capacitação podem ser bons treinadores, como acontece em outros países. Não defendo o provisado, mas não concordo que a graduação na área de educação física seja a diferença para ser melhor forma de melhorar o esporte, cada federação deveria criar critérios de qualificações e capacitações profissionais, independente do CREF.

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    1. Olá Anônimo.
      Obrigado pelo comentário!!
      Sempre procuro passar a idéia que a formação em Educação Física vai ajudar o tenista que jogou bem a ser um Professor melhor. Se o Professor só tem a prática, muitas vezes ele sabe fazer, mas não sabe repassar... É o que conhecemos como CONHECIMENTO DECLARATIVO / CONHECIMENTO PROCESSUAL. Não gosto de atribuir porcentagem, mas também sempre passo a idéia que ambos os conhecimentos são importantes!!

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  4. Para ser um bom profissional, não necessariamente precisam ser da área, precisam sim ser dedicados e procurar sempre estar atualizados para se tornam os melhores.
    Acredito sim, que é muito importante ter um diploma superior. A faculdade ensina os caminhos da pesquisa e dá conhecimento para ter uma visão mais apurada e conseguir lidar melhor em todas as situações, não apenas um papel na mão.
    Imagine um professor de educação física ensinando Balé, Judô? Você colocaria seu filho para aprender com ele ou procuraria uma escola tradicional onde um ex-atleta com muita bagagem seria o professor?
    No tênis da mesma forma, como pode um professor ensinar tênis sem nunca ter jogado uma partida? O que ele pode passar de bom para o aluno? Segundo o CREF ele é qualificado......enquanto um ex-atleta não!! Acho isto um tremendo erro, pelo menos no tênis, e alguns outros esportes mais técnicos.
    Tentando entender esta lei que credencia professores como técnico numa modalidade sem ao menos ter o conhecimento do esporte. Deveria ser obrigatória uma especialização na área pela própria federação, acompanhando treinos como estagiários e tudo mais como acontecem em alguns países da Europa.
    Existem outros países como nos EUA sem estas exigências e o tênis é indiscutivelmente superior ao Brasileiro?
    Para melhorar o tênis, as federações deveriam credenciar os técnicos pela competência e nível técnico e não pelo CREF que nada mais é que um número concedido pelo órgão fiscalizador da profissão para garantir aos formados um emprego desqualificando quem poderia ser muito bom na área.
    Com todas estas exigências ainda existem academias que permitem professores sem CREF para dar aulas? Será por falta de professores sem experiência?

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    1. Olá Anônimo…
      Por isso penso que AMBOS são necessários.
      Teoria e Prática!!!

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