sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Entrevista de Ludgero para o site DAQUIPRAFORA. Confira!!!

Site www.daquiprafora.com.br
"Ludgero Braga, o maior especialista do Brasil
 em Biomecânica de Tênis"  
Em entrevista gentilmente concedida ao Daquiprafora, Ludgero fala sobre as diferenças entre as mecânicas de jogadores de quadras de saibro, simplistas e duplistas, dentre outros assuntos.

DPF: O tênis universitário é jogado 100% do tempo em quadras duras. Como a movimentação de pés do tenista pode ajudá-lo a cobrir espaços mais rapidamente, algo ainda mais necessário em quadras rápidas?


LUDGERO: Realmente, a movimentação dos pés (chamada de footwork) deve ser específica para quadras rápidas. Duas dicas básicas: sempre fazer o “Split Step” e cobrir os espaços e ângulos da jogada. Temos três tipos básicos de Split Step: 1) Split Step durante as trocas de bola – é um pequeno salto que deve ser realizado no momento em que o adversário faz o contato com a bola (FOTO 01). Esta técnica de movimentação coloca seu corpo em estado de alerta, pronto para mover-se rapidamente em qualquer direção. 2) Split Step na devolução de saque – é utilizado para tirar seu corpo do estado de inércia e colocá-lo em prontidão para reagir. 3) Split Step durante o approach – tem por finalidade interromper a corrida e estar pronto para sair em qualquer direção. Cobrir espaços da quadra é bastante complexo, pois dependerá de vários fatores: “leitura” antecipada da jogada, tomada de decisão, tempo de reação e agilidade.

FOTO 01

DPF: Ainda falando sobre movimentação, nas quadras duras os pés não deslizam como no saibro. O que fazer para que o tenista não sofrer com essa mudança?

LUDGERO: Sabemos que o coeficiente de atrito nas quadras de saibro é mais baixo se comparado às quadras rápidas. Quando o tenista vai buscar uma bola na lateral da quadra, ele perde tempo duas vezes: antes de bater na bola (na fase de frenagem) e depois de bater na bola (fase de propulsão). Em ambas as fases, como o atrito é baixo, o tenista acaba se movendo além do planejado na fase de frenagem e “derrapando” na fase de propulsão, quando sua intenção é a recuperação para a próxima bola. Para o tenista não sofrer com esta mudança, penso que deve haver uma íntima integração entre o técnico e preparador físico. Nos treinos físicos, que quase sempre não envolvem os golpes, o tenista tem uma maior oportunidade de se concentrar em seus pés, e assim melhorar sua técnica de movimentação. Este trabalho em equipe é muito importante. O técnico sabe quais movimentações o tenista necessita para melhorar seu desempenho e o preparador físico sabe quais estímulos (treinos) desenvolverão tais habilidades no tenista.

DPF: O tênis de quadra dura se difere em alguns aspectos do tênis jogado no saibro. Como os tenistas brasileiros, em sua maioria criados em quadras de terra, podem fazer uma melhor adaptação de mecânica para jogarem em quadras duras?

LUDGERO: Como citado anteriormente, percebo que esta adaptação deve ser iniciada através do treino físico específico para a superfície de jogo. No caso da passagem da quadra de saibro para a quadra rápida, além das técnicas de movimentação, as demandas musculares são bastante diferentes. A contração muscular excêntrica (ou contração de frenagem do movimento) é muito mais brusca em quadras rápidas. Portanto, o treinamento físico deve compensar e prever este importante fator.

DPF: Em quadras duras, o saque torna-se um fundamento ainda mais importante. O que fazer mecanicamente para conseguir utilizar melhor essa arma e consequentemente ganhar mais pontos com o serviço?
LUDGERO: Um dos conceitos mais utilizados dentro da Biomecânica, e que pode responder esta questão é: Cadeia Cinética (Kinetic Chain). Este termo significa que partes de nosso corpo (joelho, quadril, ombro, cotovelo, antebraço e punho) estão conectadas, como os elos em uma corrente. Cada elo desta corrente gera força e deve transferi-la para o elo seguinte. Esta transferência só ocorre de forma eficiente quando existe uma coordenação entre estes elos, em determinada seqüência, para que a trajetória, a velocidade e o posicionamento da raquete sejam adequados no momento do contato entre a raquete e a bola. Esta correta coordenação é o que chamamos de timing, onde todas as partes do corpo contribuem para gerar velocidade na raquete. Veja a ilustração da Cadeia Cinética (FOTO 02). Portanto, respondo esta questão com este conceito, que também é válido para outros golpes. Sabemos que um tenista com ótimos golpes de base, porém com um saque deficiente, não conseguirá sucesso no circuito profissional. Vejo que alguns tenistas não conseguem fazer do saque uma vantagem por não utilizar adequadamente algum elo da cadeia cinética ou por falhar na coordenação temporal entre esses elos.

FOTO 02
DPF: Muitos jogadores brasileiros pouco voleiam, por terem sido criados no saibro. Como trabalhar o jogador para que tenha mecânicas que precisarão de poucos ajustes quando ele chegar à quadra rápida?
LUDGERO: Isso é verdade. É muito raro vermos jogadores brasileiros buscando a rede, sacando e volaeando, fazendo chip and charge. Pelo menos em simples, pois temos bons duplistas atualmente. Lembro que em 2007 preparei uma pré-temporada para o Thomaz Bellucci com ênfase em golpes de rede. Ficamos 20 dias focados em voleios, bate-prontos, smashs (de ambos os lados) e aproximações à rede. Por quê? Havia uma explicação: os golpes de base estavam ficando bem sólidos e as bolas dos adversários cada vez mais curtas. Com isso, ele estava sendo obrigado a avançar em quadra. Portanto, penso que esses ajustes para jogos em quadra rápida serão mais rápidos e menos traumáticos quando fizerem parte, desde cedo, do planejamento de treino do jogador.

DPF: Qual é a principal diferença, em termos de mecânica, entre as escolas americana e brasileira de tênis?
LUDGERO: De uma maneira superficial, vejo que a escola brasileira, por ser mais relacionada com quadras de saibro (principalmente em clubes), apresenta preparações (backswing) bem amplas, mais parecidas com a escola argentina e espanhola. A partir desta característica de enfatizar os golpes de base, vejo que o saque é deixado de lado. Infelizmente, ainda é muito comum vermos treinamentos onde o saque é treinado apenas ao final do dia, quando o tenista já está exausto física e mentalmente. Como o saque é o golpe que demanda o maior número de grupos musculares e também de muita coordenação, o desenvolvimento deste fica prejudicado. Ao contrário, a escola americana apresenta, de forma geral, uma mecânica mais enxuta, com preparações mais curtas, ênfase no saque e grips mais clássicos.

DPF: Nos EUA, muitas universidades utilizam o software Dartfish para análise dos golpes dos jogadores. Qual é sua opinião sobre análise de vídeo?


LUDGERO: A Análise Biomecânica em Vídeo é uma importante ferramenta para complementar o treinamento técnico do tenista. Através da Análise, o treinador poderá demonstrar de uma maneira mais esclarecedora os erros técnicos do tenista, bem como suas qualidades. O software Dartfish é um importante suporte nesta Análise, pois fornece informações relevantes, como: ângulos (FOTO 03), zoom (FOTO 04), sequência de imagens na mesma foto (FOTO 05), tempo de cada movimento do golpe, distâncias, comparação entre dois vídeos, trajetória do movimento (FOTO 06) entre outras.

FOTO 03

FOTO 04

FOTO 05

FOTO 06

DPF: No Brasil, não se dá tanta ênfase ao jogo de duplas como no tênis universitário americano. Para se tornar um bom duplista na quadra rápida, que ajustes um típico jogador simplista de saibro deve fazer?

LUDGERO: Muitos ajustes. É uma mudança radical. Eu citaria alguns: encurtar os movimentos de preparação (principalmente na devolução de saque), desenvolver o saque aberto, treinar voleios, bate-prontos e smashs, ler livros de táticas em duplas e perder o medo de tomar de bolada.

DPF: Em sua opinião, qual é o vício de mecânica errada mais recorrente no Brasil entre tenistas juvenis de competição?
LUDGERO:
* SAQUE: utilizar pouco os membros inferiores para gerar potência;
* FOREHAND: cruzar os braços durante a terminação;
* BACKHAND 1 MÃO: contato raquete-bola atrasado;
* BACKHAND 2 MÃOS: não utilizar como se deve o braço não-dominante (extensão do cotovelo no contato);
* VOLEIO: muita amplitude na fase de preparação.

3 comentários:

  1. muito boa a entrevista...é sempre bom acompanhar seus trabalhos!

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  2. Ludgero,
    acompanho há muitos anos os seus posts e este é mais um excelente.
    Como posso fazer para ser analisado por este software, já que moro na Bahia e nunca ouvi ninguém falar sobre o uso deste aqui? Indo a São Paulo? Mandando vídeo?

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  3. Oi Ludgero,
    Recentemente comprei um par de raquetes nos EUS, usando as dicas que peguei no seu Site e estou muito feliz com elas. PArabéns pelo trabalho de ajuda que tem feito pelo tenis brasileiro e obrigado!
    Feitas-sp

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