quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Entenda como funciona a Análise BIOMECÂNICA em Vídeo.

Tenho recebido e-mails solicitando demonstrações práticas de como a Análise Biomecânica em Vídeo é realizada. Assim sendo, neste artigo demonstrarei os resultados práticos de uma das Análises realizadas. O tenista em questão é Nicholas Mardegan, de 13 anos. Abordarei todas as etapas, que resumidamente, consiste em: análise, diagnóstico e desenvolvimento. A Análise Biomecânica em Vídeo é realizada principalmente para os três golpes mais importantes do tênis: saque, forehand e backhand. Aproveito para lembrar que os resultados alcançados (evolução) foram frutos de um trabalho de 3 meses. Cada item diagnosticado deve ser trabalhado separadamente, várias vezes, até que o tenista automatize este “novo” gesto. Depois que consegue executá-lo sem grandes demandas de atenção (tarefa probatória), passamos para o próximo item diagnosticado. Essas mudanças, obviamente, não devem ser realizadas em períodos de competição. Visando o desenvolvimento técnico/tático do tenista, utilizo uma seqüência pedagógica de técnicas corretivas e também de progressividade quanto aos tipos de treino: drills sem movimentação, drills com movimentação, controle (bate-bola) em situações fechadas, controle em situações abertas, jogos-treino e só então competições. Passando por todas essas etapas, o tenista sentirá menos as mudanças.
Gostaria ainda de registrar que algumas variáveis inerentes ao tenista analisado são cruciais para esta análise e, portanto, são levadas em consideração: estilo tático de jogo, metas, condicionamento físico, calendário de competições, capacidades mentais, entre outras. 



ETAPAS DA ANÁLISE 


1a Etapa – Esta é a etapa mais simples e rápida. Como utilizo uma câmera que registra 600 quadros/segundo, é importante filmar em uma quadra descoberta e em dia de bastante sol. Quando filmamos em um dia nublado, a imagem fica borrada nas fases mais rápidas do movimento. Existem câmeras mais potentes, que registram por exemplo, 10.000 quadros/segundo. Veja este vídeo no YouTube, com a clássica cena da gota de água caindo: 


Porém, em nosso caso, bastaria uma câmera que capturasse 60 quadros/segundo. Supondo que um saque dure aproximadamente 1,5 segundo, teríamos 90 fotos de um mesmo saque. Mais que suficiente. As câmeras mais rápidas são úteis em estudos científicos específicos, e portanto utilizadas em ambiente de laboratório. 
A filmagem em vários ângulos é justificada para garantir a análise do golpe em pelo menos duas perspectivas. Exemplo: se filmo o tenista apenas de lado, não consigo perceber se está executando o lançamento da bola à direita ou à esquerda. Consigo perceber esta variável quando filmo de frente ou de trás, por exemplo. 
Além dos ângulos mostrados, também filmo o tenista em câmera lenta (slow motion), pois são imagens muito úteis durante a fase de demonstração.



2a Etapa – Após a filmagem, capturo as fotos a partir dos vídeos registrados, em uma seqüência pré-determinada, que deve ser a mesma para qualquer tenista analisado. Só assim poderei analisar todos os tenistas com o mesmo rigor. Estas fotos (instantes) representam as 6 fases do golpe, neste caso o saque. Depois de muitas tentativas em padronizar esta seqüência, cheguei aos seguintes instantes ou fases: 

Fase 1 – instante em que o tenista inicia o movimento do saque; 

Fase 2 – instante em que a bola sai da mão do tenista; 

Fase 3 - instante de máxima flexão dos joelhos; 

Fase 4 – instante da perda de contato dos pés com a quadra; 

Fase 5 – instante de contato raquete/bola; 

Fase 6 – instante de aterrissagem na quadra. 

Após capturar as fotos, comparo-as com as fotos de um modelo, neste caso o russo Marat Safin. A escolha de Safin como modelo para o saque é justificada por este tenista executar quase todos os 30 itens que formam minha Base Técnica. Construí esta Base Técnica de acordo com modelos teóricos (estudos científicos) e práticos (dicas de grandes técnicos em revistas e livros especializados). Portanto, primeiro construí a Base Técnica, que demorou quase 4 anos, depois procurei um tenista que se adequasse.



3a Etapa – Esta etapa consiste em diagnosticar os erros técnicos do tenista, a partir da Base Técnica, que como citei anteriormente, é um checklist de 30 itens, distribuídos em 6 fases. Utilizo todos os vídeos registrados para verificar estes itens técnicos. Esta é umas das etapas mais demoradas, pois alem dos 30 itens, preciso avaliar a correlação entre eles, ou seja, como funciona a Cadeia Cinética do golpe. Lembrando o conceito de Cadeia Cinética: esse termo significa que partes de nosso corpo (joelho, quadril, ombro, cotovelo, antebraço e punho) estão conectadas, e então a força ou energia gerada por cada uma delas deve ser transferida para outra. Essa transferência só ocorre de forma eficiente quando existe uma coordenação entre as partes, em determinada sequência, para que a trajetória, a velocidade e o posicionamento da raquete sejam adequados no momento do contato entre a raquete e a bola. Essa correta coordenação é o que chamamos de timing, em que todas as partes do corpo contribuem para gerar velocidade na raquete.



4a Etapa – Consiste na elaboração do Laudo Técnico, que é o “documento” a ser entregue ao tenista, juntamente com o vídeos. Perceba na Figura acima, que este Laudo Técnico possui todas as descrições sobre cada fase do golpe analisado. É o que chamo de checklist. As frases em vermelho correspondem aos erros técnicos, ou seja, os diagnósticos a serem desenvolvidos.



5a Etapa – Com a Laudo Técnico pronto, é hora de demonstrar ao tenista os itens técnicos a serem desenvolvidos. Sempre faço esta etapa em uma sala, ao invés de fazer em quadra. Penso que desta forma o tenista estará mais concentrado. Além de mostrar os itens diagnosticados que precisam melhorar, faço questão de reforçar seus pontos técnicos positivos. Utilizo um vasto banco de dados contendo seqüências de fotos e vídeos em slow motion de grandes jogadores, convencendo assim o tenista a desenvolver mais sua técnica. Quando analiso tenistas que não fazem parte da minha Equipe de Treinamento, sempre solicito a presença do técnico, que é de fundamental importância para a continuidade do trabalho. 



6a Etapa – Cada erro técnico detectado poderá agora ser desenvolvido em quadra, através de treinos específicos. São as chamadas técnicas corretivas. Segue um exemplo, que já havia mostrado em outro post: 


Estou sempre aprendendo novas técnicas corretivas durante os cursos que ministro para técnicos de tênis. Ocorre uma importante e sadia troca de informações. 
A duração desta etapa é muito variável, dependendo do número de itens a serem desenvolvidos, do nível de atenção e comprometimento do tenista, da repetição dos treinos de técnicas corretivas, entre outros fatores.



7a Etapa – Após a execução dos treinos de técnicas corretivas, filmamos novamente o tenista, seguindo o mesmo protocolo. Capturamos novamente as fotos, nos mesmos instantes, e comparamos a técnica atual com a técnica utilizada anteriormente. Desta forma teremos uma boa noção da evolução do tenista. 



RESULTADOS DA ANÁLISE 


Diagnóstico 1 – Sem dúvida, a grande maioria dos tenistas de elite utilizam a empunhadura continental para sacar. As variações encontradas estão relacionadas à uma pequena mudança para a empunhadura eastern de backhand, que permite o tenista colocar mais efeito slice ou topspin à bola. Portanto, uma empunhadura eastern de forehand não fazia sentido. Além disso, repare que o dedo indicador não se posicionava em forma de “gatilho”, como recomendam os manuais de empunhaduras. Este dedo indicador mais à frente aumenta a sensibilidade do sacador. Esta foi a primeira mudança, acompanhada de alguns treinos de adaptação.




Diagnóstico 2 – O tenista analisado apresentava a concentração do peso corporal sobre o pé de trás (direito). Com isso, poderia executar apenas meio movimento de “balanço”. Lembrando que “balanço” completo significa iniciar o saque com o peso concentrado no pé da frente, transferir para trás e novamente para frente, com o intuito de iniciar a produção de velocidade nas articulações envolvidas neste golpe. Sugeri então a mudança. Em princípio, o tenista apenas simulou o movimento de saque, sem lançar a bola, para se concentrar apenas nos movimentos dos membros inferiores. Depois passou a executar o saque, normalmente. Foi muito bem nesta fase, sem maiores dificuldades. Percebeu que realizando o “balanço” completo, conseguia projetar o corpo mais à frente. Essa maior projeção facilita o momento linear, importante fonte de potência para o saque. 




Diagnóstico 3 – Durante o lançamento da bola (toss), é recomendado que o cotovelo esteja totalmente estendido. Desta forma, a chance da bola ser lançada para trás será menor. Sabemos que a bola deve ser lançada um pouco à frente do corpo do sacador, para que este possa projetar seu corpo em direção à bola e assim gerar potência, o que não estava acontecendo com o tenista em questão. Portanto, a dica neste caso foi lançar a bola “com o ombro” e não “com o cotovelo e/ou punho”. Além da dica verbal, fizemos treinos específicos de toss, com um alvo posicionado dentro da quadra, à frente da linha de base. O tenista sacava aleatoriamente, até que em alguma das tentativas, a partir de uma voz de comando logo após o lançamento da bola, deveria abortar o saque e deixar a bola cair na quadra. A bola deveria cair no alvo pré-estabelecido. Desta forma, o tenista vai condicionando-se a lançar a bola à frente. 
Observação- para demonstrar a íntima relação entre as fases do saque: após este exercício, ainda na Fase 2, o tenista já apresentava melhora no Diagnóstico 6 (posicionamento do pé esquerdo), na Fase 6, pois estava sendo obrigado a entrar mais na quadra para golpear a bola. 




Diagnóstico 4 – A rotação do quadril é um importante componente do saque. Podemos dividir esta rotação basicamente em 2 partes: uma para trás (fase de backswing) e uma para frente (fase forward swing). O movimento de rotação do quadril para trás vai oferecer uma maior amplitude ao sacador para executar a rotação para frente nas próximas fases. Esta rotação para frente aumentará o momento angular do movimento de saque, outra importante fonte de potência. Uma dica simples para executar esta rotação para trás é sincronizar este movimento com o toss. É o chamado toss em “J”, onde o tenista conduz o braço que lança a bola mais para trás, paralelo à linha de base.




Diagnóstico 5 – O antebraço não-dominante próximo ao tronco é um eficiente mecanismo de controle do saque. Ele ajuda a estabilizar o sistema um pouco antes do contato com a bola, que sabemos ser o instante crucial de todos os golpes. Alguns tenistas, principalmente aqueles que utilizam muita potência no saque, como Andy Roddick, posicionam o antebraço não-dominante muito próximo ao tronco nesta fase. Porém, nas próximas fases do saque, a maioria dos tenistas mudam essa posição, levando-o para o lado contra-lateral (no caso de Roddick, que é destro, para o lado esquerdo). Essa mudança de posição libera a rotação do quadril, deixando o ombro dominante e demais estruturas do sistema passarem à frente, aumentando a transferência de energia. Repare nas fotos comparativas, especificamente as últimas duas: o modelo (Safin) finaliza o saque com o ombro esquerdo mais voltado para trás, evidenciando essa maior transferência. Utilizo a seguinte dica: quando a raquete golpear a bola, sua mão deverá estar próxima do bolso, ou seja, em uma posição mais próxima a do modelo. Se a mão estiver muito alta nesta fase, próxima ao peitoral, por exemplo, a potência do saque poderá ser prejudicada.



Diagnóstico 6 – A aterrissagem com o pé esquerdo (no caso dos destros) dentro da quadra é uma característica marcante dos grandes sacadores. Como exceção à esta regra, o último grande tenista (e sacador) que conhecemos e que não apresentava esta característica foi o alemão Boris Becker, campeão de Wimbledon com 17 anos. Becker sacava trocando os pés, ainda no ar, aterrissando então com o pé direito na quadra. Confira no vídeo: 


No caso do tenista aqui analisado, apesar de já haver melhorado este componente do saque, devido à melhora do “balanço” e também ao toss mais à frente, fizemos outro exercício corretivo para reforçar a importância de aterrissar dentro da quadra. Fizemos o treino de saltar sobre uma folha de papel, colocada logo a frente da linha de base. Este treino também reforçará o ciclo de flexão/extensão dos joelhos, necessário para realizar este salto para frente. Aqui, mais um vídeo que já foi mostrado anteriormente: 

http://www.youtube.com/watch?v=yOOZTLFkhfA





Diagnóstico 7 – Também é importante analisarmos o posicionamento do pé direito nesta fase do saque. Na verdade, todo o membro inferior direito (no caso dos destros) deve movimentar-se para trás nesta fase, com o intuito de equilibrar as forças geradas durante o saque. Este movimento para trás é popularmente conhecido como “coice”. Confira em vídeo este movimento, através do saque de Thomaz Bellucci: 


No tenista analisado, percebemos que o membro inferior direito movimenta-se para o lado, prejudicando assim o equilíbrio no eixo antero-posterior. Como exercício para desenvolvimento deste item técnico, pedimos para o tenistas simular o saque, executando o “coice” e em seguida equilibrando-se já na posição final do saque.




Diagnóstico 8 – Este item se refere à continuação do Diagnóstico 5, ou seja, o antebraço não-dominate deve continuar movimentando-se contra-lateralmente, à esquerda, nos caso dos destros. Um treino bem simples para desenvolver a técnica de levar o antebraço não-dominante para o lado: pegue duas bolas para sacar. Lance uma delas para golpear, e arremesse a outra para trás, sincronizando com o movimento de saque.

Espero que tenham gostado.

Estou à disposição para dúvidas, críticas, sugestões...

ludgerobraganeto@gmail.com

Abraços.

Ludgero.



sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Entrevista de Ludgero para o site DAQUIPRAFORA. Confira!!!

Site www.daquiprafora.com.br
"Ludgero Braga, o maior especialista do Brasil
 em Biomecânica de Tênis"  
Em entrevista gentilmente concedida ao Daquiprafora, Ludgero fala sobre as diferenças entre as mecânicas de jogadores de quadras de saibro, simplistas e duplistas, dentre outros assuntos.

DPF: O tênis universitário é jogado 100% do tempo em quadras duras. Como a movimentação de pés do tenista pode ajudá-lo a cobrir espaços mais rapidamente, algo ainda mais necessário em quadras rápidas?


LUDGERO: Realmente, a movimentação dos pés (chamada de footwork) deve ser específica para quadras rápidas. Duas dicas básicas: sempre fazer o “Split Step” e cobrir os espaços e ângulos da jogada. Temos três tipos básicos de Split Step: 1) Split Step durante as trocas de bola – é um pequeno salto que deve ser realizado no momento em que o adversário faz o contato com a bola (FOTO 01). Esta técnica de movimentação coloca seu corpo em estado de alerta, pronto para mover-se rapidamente em qualquer direção. 2) Split Step na devolução de saque – é utilizado para tirar seu corpo do estado de inércia e colocá-lo em prontidão para reagir. 3) Split Step durante o approach – tem por finalidade interromper a corrida e estar pronto para sair em qualquer direção. Cobrir espaços da quadra é bastante complexo, pois dependerá de vários fatores: “leitura” antecipada da jogada, tomada de decisão, tempo de reação e agilidade.

FOTO 01

DPF: Ainda falando sobre movimentação, nas quadras duras os pés não deslizam como no saibro. O que fazer para que o tenista não sofrer com essa mudança?

LUDGERO: Sabemos que o coeficiente de atrito nas quadras de saibro é mais baixo se comparado às quadras rápidas. Quando o tenista vai buscar uma bola na lateral da quadra, ele perde tempo duas vezes: antes de bater na bola (na fase de frenagem) e depois de bater na bola (fase de propulsão). Em ambas as fases, como o atrito é baixo, o tenista acaba se movendo além do planejado na fase de frenagem e “derrapando” na fase de propulsão, quando sua intenção é a recuperação para a próxima bola. Para o tenista não sofrer com esta mudança, penso que deve haver uma íntima integração entre o técnico e preparador físico. Nos treinos físicos, que quase sempre não envolvem os golpes, o tenista tem uma maior oportunidade de se concentrar em seus pés, e assim melhorar sua técnica de movimentação. Este trabalho em equipe é muito importante. O técnico sabe quais movimentações o tenista necessita para melhorar seu desempenho e o preparador físico sabe quais estímulos (treinos) desenvolverão tais habilidades no tenista.

DPF: O tênis de quadra dura se difere em alguns aspectos do tênis jogado no saibro. Como os tenistas brasileiros, em sua maioria criados em quadras de terra, podem fazer uma melhor adaptação de mecânica para jogarem em quadras duras?

LUDGERO: Como citado anteriormente, percebo que esta adaptação deve ser iniciada através do treino físico específico para a superfície de jogo. No caso da passagem da quadra de saibro para a quadra rápida, além das técnicas de movimentação, as demandas musculares são bastante diferentes. A contração muscular excêntrica (ou contração de frenagem do movimento) é muito mais brusca em quadras rápidas. Portanto, o treinamento físico deve compensar e prever este importante fator.

DPF: Em quadras duras, o saque torna-se um fundamento ainda mais importante. O que fazer mecanicamente para conseguir utilizar melhor essa arma e consequentemente ganhar mais pontos com o serviço?
LUDGERO: Um dos conceitos mais utilizados dentro da Biomecânica, e que pode responder esta questão é: Cadeia Cinética (Kinetic Chain). Este termo significa que partes de nosso corpo (joelho, quadril, ombro, cotovelo, antebraço e punho) estão conectadas, como os elos em uma corrente. Cada elo desta corrente gera força e deve transferi-la para o elo seguinte. Esta transferência só ocorre de forma eficiente quando existe uma coordenação entre estes elos, em determinada seqüência, para que a trajetória, a velocidade e o posicionamento da raquete sejam adequados no momento do contato entre a raquete e a bola. Esta correta coordenação é o que chamamos de timing, onde todas as partes do corpo contribuem para gerar velocidade na raquete. Veja a ilustração da Cadeia Cinética (FOTO 02). Portanto, respondo esta questão com este conceito, que também é válido para outros golpes. Sabemos que um tenista com ótimos golpes de base, porém com um saque deficiente, não conseguirá sucesso no circuito profissional. Vejo que alguns tenistas não conseguem fazer do saque uma vantagem por não utilizar adequadamente algum elo da cadeia cinética ou por falhar na coordenação temporal entre esses elos.

FOTO 02
DPF: Muitos jogadores brasileiros pouco voleiam, por terem sido criados no saibro. Como trabalhar o jogador para que tenha mecânicas que precisarão de poucos ajustes quando ele chegar à quadra rápida?
LUDGERO: Isso é verdade. É muito raro vermos jogadores brasileiros buscando a rede, sacando e volaeando, fazendo chip and charge. Pelo menos em simples, pois temos bons duplistas atualmente. Lembro que em 2007 preparei uma pré-temporada para o Thomaz Bellucci com ênfase em golpes de rede. Ficamos 20 dias focados em voleios, bate-prontos, smashs (de ambos os lados) e aproximações à rede. Por quê? Havia uma explicação: os golpes de base estavam ficando bem sólidos e as bolas dos adversários cada vez mais curtas. Com isso, ele estava sendo obrigado a avançar em quadra. Portanto, penso que esses ajustes para jogos em quadra rápida serão mais rápidos e menos traumáticos quando fizerem parte, desde cedo, do planejamento de treino do jogador.

DPF: Qual é a principal diferença, em termos de mecânica, entre as escolas americana e brasileira de tênis?
LUDGERO: De uma maneira superficial, vejo que a escola brasileira, por ser mais relacionada com quadras de saibro (principalmente em clubes), apresenta preparações (backswing) bem amplas, mais parecidas com a escola argentina e espanhola. A partir desta característica de enfatizar os golpes de base, vejo que o saque é deixado de lado. Infelizmente, ainda é muito comum vermos treinamentos onde o saque é treinado apenas ao final do dia, quando o tenista já está exausto física e mentalmente. Como o saque é o golpe que demanda o maior número de grupos musculares e também de muita coordenação, o desenvolvimento deste fica prejudicado. Ao contrário, a escola americana apresenta, de forma geral, uma mecânica mais enxuta, com preparações mais curtas, ênfase no saque e grips mais clássicos.

DPF: Nos EUA, muitas universidades utilizam o software Dartfish para análise dos golpes dos jogadores. Qual é sua opinião sobre análise de vídeo?


LUDGERO: A Análise Biomecânica em Vídeo é uma importante ferramenta para complementar o treinamento técnico do tenista. Através da Análise, o treinador poderá demonstrar de uma maneira mais esclarecedora os erros técnicos do tenista, bem como suas qualidades. O software Dartfish é um importante suporte nesta Análise, pois fornece informações relevantes, como: ângulos (FOTO 03), zoom (FOTO 04), sequência de imagens na mesma foto (FOTO 05), tempo de cada movimento do golpe, distâncias, comparação entre dois vídeos, trajetória do movimento (FOTO 06) entre outras.

FOTO 03

FOTO 04

FOTO 05

FOTO 06

DPF: No Brasil, não se dá tanta ênfase ao jogo de duplas como no tênis universitário americano. Para se tornar um bom duplista na quadra rápida, que ajustes um típico jogador simplista de saibro deve fazer?

LUDGERO: Muitos ajustes. É uma mudança radical. Eu citaria alguns: encurtar os movimentos de preparação (principalmente na devolução de saque), desenvolver o saque aberto, treinar voleios, bate-prontos e smashs, ler livros de táticas em duplas e perder o medo de tomar de bolada.

DPF: Em sua opinião, qual é o vício de mecânica errada mais recorrente no Brasil entre tenistas juvenis de competição?
LUDGERO:
* SAQUE: utilizar pouco os membros inferiores para gerar potência;
* FOREHAND: cruzar os braços durante a terminação;
* BACKHAND 1 MÃO: contato raquete-bola atrasado;
* BACKHAND 2 MÃOS: não utilizar como se deve o braço não-dominante (extensão do cotovelo no contato);
* VOLEIO: muita amplitude na fase de preparação.