quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Análise Qualitativa dos Golpes no Tênis

Prof. Dr. Ludgero Braga Neto

A análise qualitativa dos golpes utilizados no tênis é uma tarefa bastante exigente, devido à velocidade, complexidade e natureza dinâmica dos mesmos. Treinadores, possivelmente, seriam mais eficientes se integrassem à prática, informações científicas utilizando um modelo compreensivo do processo qualitativo de análise.

O modelo qualitativo de análise de KNUDSON & MORRISON (1997), apresentado a seguir, é descrito e ilustrado para vários golpes do tênis. Com este modelo, os treinadores podem melhorar a análise qualitativa referente ao jogador, descrevendo pontos positivos e negativos, diagnosticando as causas de baixo desempenho e assim prescrevendo as possíveis intervenções.

Os treinadores de tênis têm como objetivo ajudar a melhorar o desempenho do tenista. O principal método utilizado para isso é baseado na análise qualitativa dos movimentos dos golpes do jogador.

Muitos treinadores são forçados a desenvolver esta habilidade apenas utilizando a sua própria experiência prática, ou seja, fazem uma comparação mental entre o golpe tecnicamente correto e o golpe que estão observando, detectam os possíveis erros e então executam as correções. No entanto, extensas análises qualitativas e pesquisas em ciência do esporte indicam que este método é inadequado (HAY & REID, 1988; KNUDSON & MORRISON, 1997; McPERSON, 1996 e NORMAN, 1975).

Uma visão interdisciplinar da análise qualitativa exige do treinador contínuos estudos ao longo da carreira, sobre a modalidade, o treinamento e as ciências do esporte.

O modelo proposto por KNUDSON & MORRISON (1997) é utilizado para ilustrar a amplitude da análise qualitativa. Este modelo define a análise qualitativa como: “observação sistemática e julgamento introspectivo da qualidade do movimento humano com o propósito de fornecer a intervenção adequada para melhorar o desempenho”. Esta difícil habilidade pode ser contextualizada nas quatro etapas do modelo de tarefas representadas na FIGURA 1, abaixo:

                                                                             

FIGURA 1 – Modelo de Análise Qualitativa (KNUDSON & MORRISON, 1997).

A seguir, a descrição das etapas apresentadas na FIGURA 1:

• Projeto – o treinador prepara-se para a análise qualitativa, reunindo informações sobre a modalidade e sobre o jogador, além de preparar a estratégia observacional;

• Observação – o treinador observa o jogador sob todos os aspectos que julga serem relevantes para reunir informações sobre o desempenho;

• Avaliação/Diagnóstico – é realizada a avaliação dos pontos positivos e negativos do desempenho do jogador e também o diagnóstico dos problemas referentes aos movimentos dos golpes; e

• Intervenção – esta tarefa é constituída da intervenção do treinador em quadra e, em seguida, realiza-se novamente a tarefa de observação.

Portanto, no momento em que o treinador de tênis for projetar a análise qualitativa, deverá julgar e integrar fontes de informação, como sua experiência e a literatura científica.

É inegável que a experiência é algo insubstituível, uma vez que fornece ricas informações a respeito da modalidade, não obstante, os treinadores devem sempre adquirir novos conhecimentos, por meio de cursos de formação, congressos de atualização, além de manter uma rede de comunicação e compartilhamento entre si. As lições de experiências profissionais transmitidas pelos treinadores devem ser cuidadosamente comparadas com a literatura científica.

Podemos citar como exemplo de controle das variáveis externas, a colocação da bola de tênis em uma posição fixa, sem a necessidade de o tenista realizar cálculos de timing antecipatório para golpeá-la.

As conclusões de uma pesquisa científica são transferíveis para a análise qualitativa e para a intervenção. Porém, o controle experimental das variáveis tende a limitar a generalização dos resultados em situação de jogo.

Apesar de ainda escassas se comparadas a outras áreas, nos últimos anos ocorreu um importante aumento na quantidade de pesquisas em ciências do esporte e também especificamente em tênis, fornecendo mais informações aos treinadores.

Treinadores devem buscar atualização permanente na capacitação profissional, seja na área do movimento humano ou em cursos de formação de treinadores. Os esforços cooperativos entre treinadores e ciência do esporte melhoraram a eficiência da análise qualitativa e, consequentemente, do ensino da modalidade tênis.

O treinador precisa reunir informações sobre vários aspectos do tênis: golpes, equipamentos, métodos de treinamento, regras, tática, entre outros. Todas estas informações devem então ser integradas e organizadas. Uma eficiente estratégia para integrar tais elementos é o estabelecimento de características básicas. Ou seja, características necessárias de um determinado golpe para que este seja executado de forma otimizada, com potência e precisão adequadas, e com o mínimo risco de lesionar o executante. As características básicas devem ser o principal foco do ensino e da análise qualitativa.

Normalmente, as características básicas são descritas como ações ou movimentos. Como exemplo, KNUDSON (1991) descreve quatro características básicas do forehand:

• Nível de prontidão do jogador em iniciar o golpe;

• Fase de preparação curta e rápida da raquete;

• Rotação do quadril e trajetória da raquete em direção à bola; e

• Terminação adequada do golpe.

Na fase observacional, é importante lembrar que a percepção visual é severamente limitada a partir do aumento da velocidade dos segmentos corporais envolvidos no movimento. A visão da trajetória da raquete e dos membros superiores do tenista em “golpes balísticos” como o saque e o forehand são extremamente difíceis. Estas limitações de percepção visual do movimento foram discutidas por KNUDSON e KLUKA (1997), os quais concluíram que os observadores devem filtrar e utilizar a grande quantidade de informações de forma cuidadosa, planejando uma estratégia observacional.

Uma estratégia observacional bastante utilizada é baseada na organização das fases do movimento. A estratégia observacional deve ser planejada de forma a simular a situação da natureza do jogo, garantindo que o desempenho seja semelhante à competição. Observar o saque de um tenista sem que ele sofra a pressão da devolução de saque, por exemplo, pode não ser relevante.

O número de tentativas também deve ser levado em conta no planejamento da estratégia observacional.

Outro aspecto a ser observado diz respeito ao local do observador. O plano ideal é perpendicular ao plano do movimento a ser observado. Normalmente utiliza-se câmeras de vídeo de alta velocidade para registrar os gestos rápidos que são executados no tênis. Desta forma, a posterior análise quadro-a-quadro fica facilitada.

Ademais, a tarefa da análise qualitativa envolve dois importantes passos: a avaliação e o diagnóstico. A avaliação determina o desempenho, identificando os pontos positivos e negativos dos movimentos executados pelo tenista. O diagnóstico é a identificação das causas do mau desempenho. Estes dois passos são os mais difíceis da análise qualitativa, devido à natureza interdisciplinar do movimento humano e da necessidade de integrar as ciências do esporte e experiência nas tomadas de decisões.

A abordagem tradicional caracteriza-se apenas em detectar algum erro de movimento e então corrigi-lo com alguma forma de feedback informacional. Já a avaliação significa mais do que detectar diferenças entre o nosso modelo mental de movimento e o movimento que o tenista realizou. Uma vez que os pontos positivos e negativos foram identificados, o analista deve encarar o desafio de determinar qual será a intervenção mais adequada.

Uma abordagem para simplificar o diagnóstico de desempenho na maioria das situações de ensino é determinar o nível de importância das características chave do golpe, baseando-se na experiência do treinador e na literatura científica. KNUDSON, LUEDTKE & FARIBAULT (1994), analisando o saque de tenistas iniciantes, propuseram seis características chave em ordem de importância, como mostra a TABELA 1:

TABELA 1 – Diagnóstico do saque no tênis por ordem de importância das características chave. (KNUDSON et al.,1994).

Característica Chave Importância

1. Empunhadura (grip) Determina a trajetória da raquete e a ação do antebraço e punho.

2. Lançamento da bola (toss) Determina o ritmo do golpe e a trajetória adequada da raquete.

3. Preparação do golpe Afeta o ritmo e a velocidade da raquete.

4. Contato raquete-bola Determina a trajetória da bola.

5. Terminação do golpe Maximiza a velocidade da raquete.

6. Apoio dos pés (stance) Afeta o equilíbrio, a precisão e a velocidade da raquete.


Com o intuito de melhorar o desempenho de seus atletas, treinadores de tênis encontraram vários caminhos para intervir no processo de aprendizagem. Ressalta-se que intervenção é mais que oferecer o tradicional feedback informacional ou correções.

Outrossim, mesmo com uma grande quantidade de ferramentas, os treinadores devem selecionar cuidadosamente uma única intervenção baseada em seu diagnóstico da situação. Esta atitude evita a ocorrência da chamada “paralisia”, onde o tenista recebe um grande número de informações e não consegue processá-las.

As ciências do esporte, com enfoque em aprendizagem motora e pedagogia fornecem pesquisas extensivas sobre como os treinadores de tênis devem intervir para melhorar o desempenho dos tenistas. Pesquisas sugerem que o feedback sobre o movimento atual (conhecimento de desempenho) é uma intervenção mais poderosa que a informação de resultado (conhecimento de resultado). De maneira mais prática, o tenista deve receber mais informações sobre “como” golpeou a bola, em detrimento de “onde” golpeou a bola.

Portanto, uma eficiente análise qualitativa envolve a integração de informações baseadas numa visão mais ampla do processo do que o clássico procedimento desenvolvido pelos profissionais que só utilizam como base suas próprias experiências práticas. Os técnicos de tênis serão analistas mais eficientes se esforçarem-se para utilizar as quatro etapas do modelo de tarefas da análise qualitativa (KNUDSON & MORRISON, 1997).



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


KNUDSON, D. The tennis topspin forehand drive: technique changes and critical elements. Strategies, v.5, n.1, p.19-22, 1991.

KNUDSON, D.; MORRISON, C. Qualitative analysis of human movement. Champaign, IL: Human Kinetics, 1997.

KNUDSON, D.; KLUKA, D. The impact of vision and vision training on sport performance. Journal of Physical Education, Recreation and Dance, v.68, n.4, p.17-24, 1997.

KNUDSON, D.; LUEDTKE, D.; FARIBAULT, J. How to analyze the serve. Strategies, v.7, n.8, p.19-22, 1994.

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